Ed. 98 - 15/05/2010

EDUCAÇÃO

Sem Preparo para Ensinar

O que define o currículo dos cursos de Pedagogia são as diretrizes estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), aprovadas em 2006. Contudo, essas diretrizes são apenas orientações às instituições superiores que decidem abrir um curso nessa área. De acordo com a Secretaria de Educação Superior (SESu), do Ministério da Educação (MEC), as diretrizes são importantes por levarem as especificações sobre o perfil do profissional a ser formado.

Para a presidente da Associação Nacional pela Formação de Profissionais da Educação (ANFOPE), Iria Brzezinski, a grade curricular dos cursos que formam professores são determinantes para que essa formação seja de qualidade e se alinhe a esta ou aquela concepção de Educação, de formação, de professor, de escola, de estudante. Entretanto, mesmo direcionando os cursos e seus currículos, as diretrizes, aparentemente, não têm feito com que a graduação em Pedagogia no Brasil realmente prepare os professores para o mercado de trabalho.

Na opinião da professora, a incerteza por falta de diretrizes até 2006 e o fato de a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) de 1996 atribuir à Escola Normal Superior a formação de professores da Educação Infantil e dos primeiros anos Ensino Fundamental, que antes eram formados nas faculdades, centros ou Departamentos de Educação, levou à organização das mais diversificadas matrizes curriculares que foram depois se adaptando às diretrizes de 2006.

Presidente do Conselho Nacional de Educação (CNE), Clélia Brandão acredita que já é necessário estabelecer novas discussões sobre as diretrizes curriculares. "Muitas vezes o que prejudica o curso de Pedagogia é que os conteúdos são muito difusos. Como se quer dar todos os conteúdos e não é possível, o currículo fica fragmentado. Essa é outra parte que precisa ser superada: a fragmentação do curso de Pedagogia".

O coordenador do Grupo de Trabalho de Educação da SBPC, Isaac Roitman, concorda com Clélia Brandão de que a educação brasileira necessita ser atualizada. O que, para ele, deve ser feito considerando-se as inúmeras portas de conhecimento que o estudante de hoje dispõe. Questionado se, hoje, a universidade forma professores capacitados para lecionar na Educação Básica, Isaac enfatizou que "absolutamente" não. "Os profissionais talvez sejam adequados para estudantes de 50 anos atrás. É cada vez mais frequente o fato de um estudante do Ensino Médio assistir uma aula sobre determinado assunto estando mais atualizado que o professor", completou.

Outro ponto apontado por Clélia Brandão é o distanciamento das escolas de formação, das instituições de Ensino Superior em relação à própria Educação Básica. "Ainda há uma prioridade pelo bacharelado e por isso a licenciatura nem sempre corresponde à expectativa de formação. Há também um distanciamento, o que me parece consequência da falta de valorização do Magistério".

Mas o que fazer para que cada vez menos cursos precisem de supervisão e para que cada vez mais os professores sejam formados com qualidade? Para o professor aposentado da Universidade de Brasília (UnB), Isaac Roitman, deve ser formado um "novo professor", que será  preparado para ser um estimulador e um instrumento para que o estudante possa adquirir o conhecimento e fazer uso correto dele.

Quanto às diretrizes curriculares, a professora Iria Brzezinski acredita que devem existir conteúdos básicos para compor os currículos dos cursos de formação de professores, o que poderá padronizar na base a identidade da docência. "No entanto, não julgo positivo padronizar rigorosamente todos os cursos, visto que devem ser consideradas nesses currículos a dependência administrativa e a missão institucional (pública ou privada), as características regionais e, sobretudo, a criatividade da instituição formadora".

Fonte: Tribuna do Planalto/Jornal da Ciência/SBPC, 27/04/2010.

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